O que acontece depois que você marca uma avaliação psicológica?

Entenda o que acontece depois de marcar uma avaliação psicológica, como funciona o processo, os testes, as entrevistas e a devolutiva dos resultados.

Você pesquisou sobre avaliação psicológica.

Leu alguns artigos.

Talvez tenha feito alguns testes na internet.

Pensou bastante.

E finalmente tomou a decisão de marcar uma avaliação.

Mas aí surge uma nova dúvida:

“E agora? O que vai acontecer?”

Talvez você esteja imaginando que vai chegar ao consultório, sentar em uma cadeira e começar a responder uma sequência enorme de perguntas e testes. Ou talvez esteja preocupado em não saber o que dizer.

“E se eu não conseguir explicar o que está acontecendo comigo?”

Pode ficar tranquilo.

Você não precisa chegar à avaliação com todas as respostas.

Na verdade, a avaliação começa justamente porque existe uma pergunta que ainda não foi respondida.

A primeira coisa que acontece não é um teste

Essa talvez seja uma das maiores dúvidas de quem nunca passou por uma avaliação psicológica.

“Vou chegar e já começar a fazer teste?”

Geralmente, não.

Antes de escolher qualquer instrumento, é preciso compreender por que você está buscando a avaliação e o que precisa ser investigado.

A avaliação psicológica é um processo estruturado de investigação, realizado de acordo com uma demanda e uma finalidade específica. Por isso, os métodos, técnicas e instrumentos utilizados devem ser escolhidos de acordo com aquilo que está sendo investigado. [1]

Pense como uma consulta médica.

Se você chega dizendo que está sentindo alguma coisa, o profissional primeiro procura entender o que está acontecendo. Dependendo da situação, pode fazer perguntas, observar alguns sinais e só então decidir se determinado exame é necessário.

Na avaliação psicológica existe uma lógica parecida.

Primeiro, precisamos entender a pergunta.

Depois, pensamos em como investigá-la.

“Mas e se eu não souber explicar o motivo?”

Tudo bem.

Você não precisa chegar dizendo:

“Eu tenho TDAH.”

ou

“Eu acho que estou no espectro autista.”

Você pode simplesmente dizer:

“Tenho muita dificuldade para me organizar e isso está começando a atrapalhar minha vida.”

Ou:

“Sempre me senti diferente das outras pessoas e gostaria de entender melhor o motivo.”

Ou ainda:

“Eu não sei exatamente o que está acontecendo. Só sei que algumas coisas sempre foram muito difíceis para mim.”

Isso já é uma demanda.

A partir dessa conversa, o psicólogo pode ajudar a transformar uma sensação ou dúvida em uma pergunta que possa ser investigada.

O que o psicólogo vai perguntar?

Essa parte pode variar bastante de acordo com o objetivo da avaliação.

Mas é comum que a conversa envolva aspectos da sua história, desenvolvimento, rotina e dificuldades atuais.

Por exemplo:

  • Quando você começou a perceber essa dificuldade?
  • Isso acontecia também na infância?
  • Em quais situações acontece?
  • Acontece em diferentes ambientes?
  • Como isso interfere no trabalho ou nos estudos?
  • Como afeta seus relacionamentos?
  • O que você costuma fazer para lidar com essa dificuldade?
  • Existem situações em que ela melhora?

Essas perguntas não são feitas por curiosidade.

Elas ajudam a construir o contexto necessário para compreender aquilo que está sendo investigado.

A história da pessoa é uma parte importante do processo de avaliação psicológica. [1]

“Eu preciso lembrar de tudo?”

Não.

E isso é importante dizer porque algumas pessoas chegam preocupadas pensando que precisam preparar uma apresentação sobre a própria vida.

Você não precisa decorar datas.

Não precisa lembrar exatamente de todos os acontecimentos.

E não precisa saber explicar tudo de maneira organizada.

A própria entrevista pode ajudar a organizar essas informações.

Às vezes, uma pergunta faz você lembrar de uma situação que parecia esquecida.

Às vezes, você percebe uma relação entre acontecimentos que nunca tinha percebido antes.

Por isso, a avaliação também pode ser um processo de descoberta.

E quando entram os testes psicológicos?

Depois que a demanda é compreendida, o psicólogo pode identificar quais instrumentos são adequados para aquela investigação.

E aqui existe uma informação importante:

não existe uma bateria de testes igual para todo mundo.

Se duas pessoas chegam dizendo que têm dificuldade de concentração, isso não significa necessariamente que passarão exatamente pelos mesmos procedimentos.

A escolha dos instrumentos depende da finalidade da avaliação e das características da pessoa avaliada. [1]

Os testes psicológicos reconhecidos para uso profissional são recursos técnicos utilizados dentro desse processo de investigação. [2]

Mas eles não funcionam como uma máquina que coloca uma resposta na tela.

Pense nos testes como peças de um quebra-cabeça

Imagine que você queira entender uma imagem, mas só tenha algumas peças.

Uma peça mostra uma parte.

Outra mostra outra.

Sozinha, nenhuma consegue explicar o desenho completo.

Na avaliação psicológica acontece algo parecido.

Uma entrevista traz determinadas informações.

Um instrumento psicológico pode trazer outras.

A observação pode acrescentar mais uma peça.

A história de vida ajuda a colocar tudo isso em contexto.

É a integração dessas informações que permite construir uma compreensão mais ampla.

Por isso, o resultado de um único teste não deve ser interpretado como se fosse capaz de explicar sozinho toda a experiência de uma pessoa.

E se eu fizer um teste e o resultado der positivo?

Essa é uma dúvida bastante comum, especialmente quando a pessoa está investigando TDAH, TEA ou outra condição. Um resultado em determinado instrumento não significa automaticamente que você possui um diagnóstico. Isso porque instrumentos psicológicos precisam ser interpretados dentro do contexto da avaliação.

Imagine que você faça um questionário sobre ansiedade e obtenha uma pontuação elevada.

Isso indica alguma coisa?

Sim, pode indicar a presença de características que merecem ser consideradas.

Mas a pergunta seguinte é:

“O que essa informação significa no contexto dessa pessoa?”

É isso que a avaliação procura compreender.

Durante a avaliação, você pode descobrir coisas que não esperava

Isso também pode acontecer.

Talvez você tenha procurado uma avaliação porque acredita ter TDAH e, durante o processo, perceba que existem outras questões importantes que precisam ser consideradas.

Talvez você tenha chegado pensando em uma possibilidade e descubra que outra explicação faz mais sentido.

Ou talvez a avaliação ajude justamente a confirmar uma hipótese que você já vinha considerando.

Todas essas possibilidades fazem parte de uma investigação.

O objetivo não é confirmar aquilo que você pesquisou na internet.

O objetivo é compreender o que os dados da avaliação indicam.

Quanto tempo dura uma avaliação psicológica?

Não existe uma duração única para todas as avaliações.

O número de encontros e o tempo necessário podem variar de acordo com a finalidade, a complexidade da demanda, os procedimentos utilizados e as características de cada pessoa.

Por isso, desconfie de uma proposta que trate toda avaliação psicológica como se fosse exatamente igual.

Uma avaliação não é um produto pronto em que basta seguir um número fixo de etapas para chegar a uma resposta.

O processo precisa ser construído de acordo com a pergunta que está sendo investigada.

E depois dos testes?

Depois da etapa de coleta de informações, existe uma parte muito importante que muitas pessoas não veem: a análise.

O psicólogo precisa integrar as informações obtidas ao longo do processo e interpretá-las de acordo com a finalidade da avaliação. É nesse momento que aquelas diferentes peças começam a formar uma imagem mais completa.

Não se trata simplesmente de somar pontos.

É preciso compreender o significado das informações dentro da história e do contexto da pessoa.

E quando eu vou saber o resultado?

Ao final do processo, acontece a devolutiva.

Esse é o momento em que o psicólogo apresenta e conversa com você sobre as conclusões da avaliação, esclarecendo os principais aspectos identificados e, quando pertinente, os próximos passos. A devolutiva é uma etapa importante porque receber um resultado sem compreender o que ele significa não é suficiente.

Você deve ter espaço para fazer perguntas, esclarecer dúvidas e compreender as informações apresentadas. Dependendo da finalidade da avaliação, também pode ser produzido um documento psicológico adequado ao trabalho realizado e às normas profissionais aplicáveis. [3]

“E se eu não gostar do resultado?”

Talvez você esteja pensando:

“E se eu descobrir que não tenho aquilo que imaginava?”

Ou:

“E se aparecer alguma coisa que eu não esperava?”

Essas preocupações são compreensíveis.

Mas uma avaliação psicológica não deveria ser uma busca por um resultado específico.

Ela é uma investigação.

Imagine que você esteja procurando a origem de um problema em casa.

Você acha que está em um determinado lugar.

Procura.

E descobre que não está.

Isso não significa que a investigação deu errado.

Significa que uma possibilidade foi descartada e que agora você pode procurar em outra direção.

Com a avaliação psicológica pode acontecer algo parecido.

Uma conclusão diferente daquela que você imaginava também pode ser uma informação importante.

Você não precisa ter medo de “responder errado”

Outra preocupação bastante comum é:

“E se eu responder alguma coisa errada?”

Você não está fazendo uma prova.

Não existe uma resposta que você precisa decorar para conseguir um resultado específico.

O objetivo é compreender você — não avaliar se você sabe dar a resposta “certa”.

Por isso, tente responder da forma mais honesta possível.

Se não souber.

Diga que não sabe.

Se não lembrar.

Diga que não lembra.

Se uma pergunta não fizer sentido para você.

Pergunte.

A avaliação é um processo profissional de investigação, e você tem o direito de compreender o que está sendo realizado e qual é a finalidade daquele processo.

Talvez a parte mais importante aconteça antes do primeiro teste

Quando você marca uma avaliação psicológica, talvez imagine que está apenas contratando alguns encontros para responder questionários.

Mas existe algo muito maior acontecendo.

Você está trazendo uma pergunta sobre si mesmo.

Talvez seja:

“Por que tenho tanta dificuldade para me concentrar?”

“Será que tenho TDAH?”

“Será que essas características que me acompanham desde criança podem estar relacionadas ao TEA?”

“Por que algumas situações sempre foram tão difíceis para mim?”

“O que está acontecendo comigo?”

A avaliação psicológica existe para investigar essas perguntas de maneira cuidadosa e estruturada.

Não para encontrar um rótulo a qualquer custo.

Não para dizer quem você deveria ser.

Mas para ajudar a compreender melhor quem você é, como funciona e o que pode estar por trás das dificuldades que trouxe você até aqui.

Então, o que acontece depois que você marca uma avaliação psicológica?

Você conversa.

Conta o que está acontecendo.

O psicólogo conhece sua história.

A demanda é compreendida.

Os procedimentos adequados são definidos.

As informações são reunidas e analisadas.

E, ao final, os resultados são apresentados e discutidos com você.

Parece simples quando colocado dessa maneira.

Mas existe muito cuidado entre uma etapa e outra.

Porque você não é apenas o resultado de um teste.

Existe uma pessoa inteira por trás daquela pergunta que trouxe você até a avaliação.

E é essa pessoa que precisa ser compreendida.

Está pensando em realizar uma avaliação psicológica?

Você não precisa ter certeza sobre o que está acontecendo para procurar ajuda. Pode começar pela dúvida.

“Eu não sei exatamente o que tenho. Só sei que gostaria de entender melhor.”

Essa já pode ser uma boa razão para conversar sobre uma avaliação psicológica.

Avaliação Psicológica

Flavia Andrade — Psicóloga

Um processo individualizado, com escuta cuidadosa, rigor técnico e atenção à história de cada pessoa.

Referências

[1] Conselho Federal de Psicologia (CFP). Resolução CFP nº 31/2022. Estabelece diretrizes para a realização de Avaliação Psicológica no exercício profissional da psicóloga e do psicólogo.

[2] Conselho Federal de Psicologia (CFP). Testes Psicológicos — informações sobre o uso profissional de testes psicológicos e o Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPSI).

[3] Conselho Federal de Psicologia (CFP). Resolução CFP nº 06/2019. Institui regras para elaboração de documentos escritos produzidos pela psicóloga e pelo psicólogo no exercício profissional.

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